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terça-feira, 18 de maio de 2010

Estiagem


Pela primeira vez,
não sentia qualquer prazer
na superioridade intelectual.
Naquele instante,
gostaria de ser uma dona de casa siciliana,
com as ancas largas, a lasanha no forno
e as crianças na barra da saia.
(...)Queria não ter lido Nietzsche, Foucault,
Marx,Freud,Deleuze,Lacan.
Queria não ter ombros largos.
Queria não ter opinião.
Mas tinha.
E era estranho pensar como tudo
que representava tanto valor poucos minutos antes
agora não passava de névoa, espuma de chuveiro, pó.
(...)Ela levantou, deu uma última olhada no apartamento
e saiu pela porta da cozinha.
Ao ganhar a rua, não olhou para trás.
Tinha memória seletiva,
não precisava de imagens da fachada do prédio
com janelas verdes.
(...)Ficaria com as lembranças táteis
(...)A vida sem Antonio Pastoriza seria uma estiagem.

Narcisismo


"Reclamaria da arrogância, do individualismo,
da sogra, da cunhada, da higiene precária,
do futebol de domingo, do jogo de pôquer,
da fórmula 1, da inapetência.
Nada muito diferente das 20 sessões anteriores,
e que também se repetia nas sessões dos outros casais,
em outros consultórios,
com outros terapeutas e outras técnicas.
Astrologia e caldo de galinha eram mais surpreendentes
do que aquele enredo."

Desejo


Dez anos antes, durante seu primeiro casamento,
experimentara uma angústia
muito próxima a que estava vivendo
O mesmo formato, as mesmas cores,
o mesmo sujeito paranóico
que procurava defeitos improváveis
e reclamava dos atrasos,
que não a acompanhava ao médico,
que esquecia dos aniversários,
que ignorava o novo corte de cabelo,
que não fingia gostar da sogra,
que virava para o lado
quando ela queria cumplicidade.
Uma compulsão para o erro,
a necessidade perene de sabotá-la
nos pequenos detalhes cotidianos:
nos aromas ,nas decisões, no pensamento,
nos planos, no café com bolo pela manhã.
Ou seja, naquilo que realmente importava.
Atitudes que ficaram bem claras
quando ela arrumou as malas e foi embora,
deixando o desejo materializado pela falta.
Tornando-a uma ausência, ele a eternizara.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Fases


°°Nos meses seguintes saíram juntos
quase todos os finais de semana,
além de jantares ocasionais nas terças e quintas(...)
Viram os filmes do Antonioni,
foram a peças experimentais,
leram romances ingleses sem enredo.
Coisas sofisticadas, de que ele fingia gostar
e ela achava que ele gostava.
(...)Foi a 'fase namoro', a tal parte boa,
pré assinatura, em que as concessões eram regra,
mesmo quando nenhuma das partes entendia muito bem.
Bastava a crença de que agradava ao outro.°°

Dor


¨A dor organiza o corpo.
A reação àquilo que dói é estabilizadora,
fornece limites,
determina fronteiras,
permite a recomposição.
(...)Toda nevralgia é premonitória.
Esse é seu objetivo.¨

Terapia de Casal


'Não tenho vocação para esse papel.
Competir com as pururucas do Leblon é uma coisa.
Eu até me garanto.
Mas competir com a mãe é muita neurose!
Assim fica difícil, doutora!
(...)Os homens não querem uma mulher,
querem uma babá.
(...)É isso que vc quer, Carlinho?
Não sou sua babá, entendeu?
(...)Até as babás saem do sério, sabia?
(...)vou te punir, Carlinho.Vc vai ver!
(...)Como pra que, doutora?
Vou punir pra que ele volte a ser o que era.
(...)Quero que ele volte a ser romântico,
que mande flores,
que pergunte pelo meu dia.
Quero que repare no meu cabelo, na minha pele,
nas horas que gastei no salão,
dermatologista, na drenagem linfática.
Quero que seja meu.
Quero que diga:
Olga, meu amor, quanta saudade!
É pedir muito, doutora?
Fala sério:estou querendo alguma coisa demais?
Não é prepotência ,nem fantasia.
Tenho o pé no chão, sou realista.
Estou ligeiramente atormentada, é verdade.
Mas nada grave.
O que peço é muito simples:
quero de volta o que já tive.
Quero que o Carlinho volte a ser o que era.
Claro que sei, doutora.
Ele era perfeito, só isso.'

Terceira Visão


Não existe.
É inatingível, infactível, inexequível.
Uma entidade metafísica.
Se vc acredita nela é pq
não tem marido,
ou não tem mulher.
No casamento,
só existe a versão dele
e a versão dela.
Ambas são mentiras.
E vice-versa.

Terapeutas


'Era inevitável:
as histórias de casais lhe lembravam
sempre os romances de Gabriel García Márquez.
Amores contrariados, amores frustrados,
amores impossíveis.
Uma sensação nítida de que não apenas ouvia,
mas participava integralmente dos enredos.
Imaginava as roupas, desenhava os cenários,
criava resoluções para as tramas,
viajava para os locais descritos e, acima de tudo,
tentava desconstruir os personagens.
Talvez fosse ela mesma uma personagem.
Não que houvesse algo de mágico
naquelas histórias cotidianas,
mas sua tendência à idealização
sempre a levava ao mundo da fantasia,
mesmo nas questões triviais,
o que,para alguns, era incompatível
com sua nova carreira.'